BRISA
O dia tem estado mais claro, mais comprido com a chegada da primavera e tende a se estender mais ainda com o horário de verão. O céu brilha mais; há mais estrelas e a lua está cada vez mais iluminada. A paz tomou-lhe como numa invasão. Uma música que ouvia sem atenção começa a fazer sentido. Seus olhos perdidos em algum canto do horizonte apontam as lembranças. A concentração é subitamente tomada por versos e poemas. Isto tem sido ela... Finalmente começa a pensar que pode ser uma mulher cor de rosa; alguém está lhe ajudando a propiciar isso. Não precisa ameaçar, competir, brigar, xingar ou gritar. Pode ser o que vinha escondendo há tanto tempo. O medo de encarar, de olhar nos olhos e sentir eram constantes. Precisava ser a mulher que escancarava, que não dizia que não podia que não devia, tudo era possível...mesmo que sentisse a dor latente. A lembrança de seu amor passado atormentava, não havia como se doar e pra que se doar também. Só havia o gosto da vingança disfarçada em paixão. A luta contra aquilo era improrrogável, não havia trégua, não havia suspiro, era o sopro que levava, o sopro da vingança. E então bateu uma brisa, uma brisa mais forte que o sopro e a revirou. Pôde se mostrar, se enfeitar, se admirar e provar da brisa oposta pois foi acolhida. A brisa trazia a paz, trazia a poesia, lhe abraçava com ternura, lhe esquentava nas tardes frias. A brisa lhe deu asas para poder sonhar novamente, limpou seu chão onde restavam cacos que lhe cortavam os pés, levou as tardes escuras, as noites cinzentas e molhadas, as madrugadas intermináveis. No entanto ainda é cedo para saber se é mais fácil desistir do amor do que persistir, pois para ela, é cada vez mais difícil acreditar em destino. Quando a brisa lhe deixa na corda bamba ou na borda do penhasco, espera-se um vendaval? Espera-se um raio de sol? Porém, mesmo cedo, tem sido mágico como não saber andar abraçado, como gostar de suco de abacaxi e como querer dizer o que o outro pronunciou. E tem sido simples como o olhar que transmite a calma, o abraço que esquenta, o beijo que alenta. E tem sido surpreendente quando fala em casar, admira seus gostos e pede para ela se mostrar...de óculos. E é genial como quando fala da sua preferência por mulheres não muito magras, quando mostra seu jeito de moleque envergonhado e suas opiniões de homem. É maravilhoso como o entardecer na praça, a noite no café; sua voz ecoa! E como tudo faz sentido! E se amplifica no amanhecer...
Escrito por LUA às 18h47
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