Faz algum tempo que quero escrever sobre minha condição de "dona de casa", porém ainda não tinha conseguido.
Então estava lendo a TPM deste mês e cheguei nesse artigo que é muito bacana; há coisas tudo a ver e outras que eu ainda não cheguei....
Porém a questão da solidão já foi muito discutida em análise e é a grande sacada deste texto. Ao que a autora nomeia de "luxo da solidão" eu nomeio de "escolha de solidão". Escolha "de solidão" porque não é algo definitivo, engessado e para sempre. Entendo que a solidão pode ser uma escolha: "Antes só do que mal acompanhada". Este é a sacada do luxo da solidão.
Pode ser muito bom estar sozinha se vc opta por isso, se não enxerga isso como uma escolha que os outros fizeram por vc (tipo: nenhum cara me quer). Família a gente não escolhe, mas amigos e companhia sim!
O buraco, o vazio, cada um deve achar o seu e entender; mas é bacana poder passear, brincar e curtir essa vala também.
Solidão forever não é comigo, não é para mim, desde que eu escolha isso e esteja consciente disso!
Agradeço aos amigos que escolhi e que me escolheram por me ajudarem a tornar o buraco mais raso. Obrigada!!!!!
O luxo da solidão
O problema é que, às vezes, solteira e morando sozinha, surge um buraco dentro de casa, e não dá vontade de voltar pra casa, para não cair no buraco. Num passe de magia, os cem metros quadrados do apartamento reduzem-se ao banheiro e ao armário; entro, tomo banho, me visto e pulo fora, caindo, noite após noite, na rua na gandaia, onde faço tudo demais, porque minimalismo é lindo nas obras do Mondrian ou do Philip Glass, mas, na vida, bom mesmo é o excesso, barroco life style, um pé na jaca outro no rococó.
Então chega uma hora em que a música fica tão alta que dá vontade de abaixar o som. Como se o abuso de sexo matasse o desejo, as Jean Baudrillard said. Como se as inúmeras ressacas dessem vontade de beber menos. Como se o caos gerasse uma espécie de ordem.
Subitamente, a paz. Não sei donde nem por que ela veio, mas o fato é que existe o ying/yang, os movimentos literários, a mudança das estações e, talvez por isso, seja apenas alternância de módulos: ora festa ora casa, ora inquietude ora tranqüilidade, ora ação ora contemplação. Mas, no frigir dos ovos, desmanchou-se o peso da minha ansiedade. Vivi tanto, em tão pouco tempo, e com tamanha intensidade, que a urgência desfez-se. Agora, é possível respirar calma e profundamente.
Hora de arrumar a casa. Comprar alguma coisa nova, mudar uns móveis ou uma planta de lugar. Hora de ler todos aqueles livros que ficaram meses sobre a estante. Assistir DVD tomando chazinho na cama. Ou não fazer nada. Driblar, feito um Garrincha contemporâneo, a tirania da diversão. Ficar de bobeira, perder tempo vendo como as folhas das árvores tornam-se mais verdinhas depois da chuva. “Esquecer” o celular em casa. Tratar bem os sentidos e visitar uma exposição. Caminhar na praia ou no parque all alone, apenas com o iPod, please. Aceitar um convite do meu pai e, sem avisar ninguém, fazer uma viagem pro litoral só com ele. Voltar de viagem e não abrir e-mail, mas ir a uma cinemateca ver um filme estranho e antigo. Hora de aproveitar, enquanto ainda não tenho filhos, marido, família, o luxo da solidão.
Antonia Pellegrino na TPM Dez 2005/Jan 2006
Escrito por Kaká às 10h39
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