Madame acha que é pra eu gostar do mancebo asseadinho, homem bom, do cabelo penteado, carro do ano, com saúde e emprego promissor. A Madame não entende que eu gosto mesmo é de cão vadio, homem doido, malaco véio, malandro da rua. Aquele tipo de cara simpático, neurótico, todo errado, por quem a gente inventa um amor estranho, que te vira do avesso e, mesmo assim, toda revirada, a gente ainda pede: fly me to the Moon?
Sendo bem etnocêntrica, imagino que este tipo de moço seja um tipo que, pelo menos grande parte das mulheres que eu conheço, ou seja, com pendor estranho, queira; porém, nem todas aguentam ter um exemplar ao lado. Porque dá defeito, problema, desenvolve TOC, acorda de ressaca, tem cheiro de roubada, enfim, é um daqueles escolhidos, como diria minha avó, com dedo podre. E, de alguma maneira, em algum surto lírico, as mulheres sonham, caladas, quietas, trancadas no quarto, sozinhas na casinha, com o tal homem do cavalo. E é difícil não fingir que aquele cara não é o do cavalo. Não, definitivamente ele não é o do cavalo. Mas ama sem ironia.
- Você merece coisa melhor, diz a Madame.
Desdenho. Haverá coisa melhor que um amor bandido? A Madame não se conforma. Como posso eu, moça de fino trato, boa cepa, com pendor arrogante, ar aristocrático, perder meu tempo com vagabundo? A Madame não cultivou o hábito de assistir Walt Disney.
***
É sem volta porque é em camadas. Está espalhado por todos os cantos, feito poeira, feito dia seguinte daquelas noites, peças de roupa por tudo que é lugar. Não é quartinho escuro que a gente tem a chave pra entrar, se tranca lá dentro, faz merda e depois veste o terno e vai pro serviço. Não, a coisa se impregna, está em tudo, na rotação e translação do mundo, na circulação do sangue, veias e artérias, na rejeição do mundo besta, na reincidente e trágica ida ao mundo besta acompanhada do cavalheiro errado que só ama se for em excesso. E por quem a gente revira os olhinhos.
***
Faça sua prece pra que a maluquice escolhida por você seja maluquice mas seja doce, delírio de doido manso, cabra alucinógeno, habitante de mundos fantásticos. E assim, toda obscuridade da loucura destrutiva fugirá de ti.
Caso contrário, se tua estrada for da perdição, costure as cicatrizes do teu homem ao cair da noite e deixe ele te dar banhos de Cleópatra ao cair do dia.
***
E lembre-se do conselho da Fada Madrinha: nessas histórias de Dama e Vagabundo, tudo muda quando a Dama percebe que é uma rainha louca. Aí começa a ficar bom, o inferno aqui é mais embaixo.
(*) Por Antonia Pellegrino
Escrito por Kaká às 14h08


Leia este blog no seu celular