Continuando, mas de outra forma...

Nada menos que o infinito

 

Já fui outra, puta, esposa, corna, promíscua e muito infiel. Quase que por princípio: a favor da liberdade, contra a fidelidade. Já traí por esporte, vingança, tesão, falta do que fazer, perversidade, paixão. E poucas vezes menti – a verdade como forma de redenção. Talvez nunca tivesse amado.

 

Acreditei durante muito tempo que, depois do esfacelamento da instituição casamento, a maior contribuição para um novo modelo de relacionamento havia sido dada por Simone de Beauvoir e Jean-Paul Sartre. O modo “viver em casas separadas e conciliar amores contingentes desde que não atrapalhem o amor necessário” parecia, sem sombra de dúvida, perfeito. Para quem pode, não para quem quer.

 

O par Simone-Sartre tinha uma cumplicidade inabalável em muitos sentidos: na linguagem, no intelecto, no afeto. Eram parceiros incondicionais. Tinham tamanha confiança um no amor do outro; tinham um desejo enorme de fazer de suas vidas, também elas e não só as obras, uma experimentação ética e estética; tinham tamanha solidez simbólica e amorosa que foi possível abrir a relação e arcar com seus riscos.

 

Na selva urbana dos amores líquidos, estabilidade como a deles é cada vez mais rara. Na jungle o que se pode almejar ao final de quase toda a balada é trepar, trepar, trepar com um, com dois ou três, com uma ou outra; encontrar alguém para nos salvar de nós mesmos, mesmo que por um instante; inventar um jeito de tapar esse buraco que insiste em irromper no peito.

 

Nesse fluxo incrível de diferentes experiências, nessa múltipla possibilidade de escolha, no meio desse volume de gente, de corpos, de carne humana; casamento, família fidelidade parecem uma caretice sem fim, alguma coisa completamente fora de moda. Hora de voltarmos a ela.

 

Nada mais contemporâneo, necessário, urgente que ser fiel até o último fio de cabelo, que desejar no amor nada menos que o ilimitado, que acreditar no pra sempre, escolher alguém, se expor inteiramente à vertigem do outro. Amar demais, amar sem medo, amar pra caralho, deixar o amor brilhar dentro do peito, amar com todas as partes do corpo.

 

Quanto mais eu amo e sou fiel, mais livre me sinto. Quanto mais eu dedico o meu desejo somente a uma pessoa, mais liberdade eu experimento. Quanto mais eu conheço o outro, mais eu me apaixono. Quanto mais eu converso, mais quero conversar. Quanto mais eu quero, mais quero tudo.

 

Pelo fim do casamento burocrático, inerte, covarde. Sejamos grandes. A favor da coragem de meter a mãe nas feridas, nos problemas, nas dificuldades e se reinventar dentro da relação. Ou não, e ter a coragem de assumir a falência, e romper e partir pra outra. A dor muitas vezes é civilizadora, luto não mata.

 

A favor da liberdade feminina, do fim total desses padrões arcaicos de que mulher feliz é mulher casada. Mulher feliz é mulher que trabalha, trepa, vive, tem amigos, ganha grana, pensa, dança, gargalha.

 

E, se necessário for, não tenha filhos. O casamento sem filhos é sustentado, exclusivamente, pelo desejo. Essa é uma forma de atualizar, cotidianamente, o prazer de viver junto.

 

Não se apegue àquele discurso de que o mercado masculino está difícil. Não é papo, é verdade, estatística: já deu no Fantástico. Então, invente soluções. Viaje, conheça gente em outros lugares do mundo. Entre em sites, arrume um macho na Internet. Ou parta para o lesbianismo – depois dos avanços da indústria do sexo, pau não é mais problema.

 

Mas, se preferir ser amante, então seja amante por convicção. Daquelas que não querem um relacionamento estável, mas encontros eventuais, sexo conhecido, alguma cumplicidade com um homem que não fique para o café-da-manhã – graças a Deus. O que não dá é ficar maldizendo as esposas e querendo se tornar uma delas. Se conformar com a posição de amante wannabe, por mais amor que sinta, não rola. O pior lugar que pode se estar na vida é no meio do caminho.

 

Nunca se conforme com menos que tudo.

 

Antonia Pellegrino

 



Escrito por Kaká às 12h56
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Só para complementar, Arnaldo Antunes:

17 Arnaldos
Arnaldo Antunes / ReiSalles - 2006

viver não tem volta
o dia de amanhã chegou
a culpa é de todo mundo
o rio não sabe onde vai
que versão da verdade
se o chão rachar o teto cai
vivo de morrer
deixar de ser pra deixar ser
crescer dói
perder liberta
de comerciante sem troco todo mundo tem um pouco
não faço direito
faço do meu jeito
o olho não se enxerga
o olho reflete o que vê
o avesso do espelho é você
fecha os olhos e manda ver



Escrito por Kaká às 14h01
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Queria poder voltar o tempo...

Mas o que eu faria diferente?

 

Penso que não mudaria as atitudes, as escolhas, os caminhos, pois estes fizeram de mim quem eu sou.

 

Mas mudaria as palavras: o modo como foram ditas, as construções das frases, as acusações, as brigas...

 

Descobri que quando fico frágil, quando me sinto machucada, frustrada, quando não consigo me comunicar, me fazer entender, eu brigo, eu fico brava, eu explodo! E assim como você, eu perco a razão.

 

Deveria dizer desses meus sentimentos, deveria conseguir dizer o quanto dói, o quanto me pega, o quanto tenho medo, sou insegura, o quanto fico angustiada, ansiosa, mas simplesmente não consigo.

 

Como diz uma amiga, eu perco o “timing” do choro, de falar dos sentimentos, os meus sentimentos; falo dos sentimentos do outro, o que pode resultar numa acusação.

Perder o timing significa que não demonstro o que tenho que demonstrar na hora que tenho que demonstrar, aí eu falo coisas, outras coisas, coisas que saem através dos meus sentimentos de frustração, e digo tudo aquilo que não precisava ser dito aquela hora, ou talvez em hora alguma. Então, muitas vezes não tem volta!

 

Palavras mal-ditas, na hora errada, de forma errada podem machucar muito e também sei que essa é minha maior arma; não bato, não soco, não puxo o tapete, mas saco a metralhadora de palavras e lanço minhas fraquezas no outro, machucando, infernizando, brigando, nocauteando.

 

Penso que o estrago que fiz foi esse. Penso que o impacto ao qual vc se refere foi esse também.

Te machuquei, disse que desistia, joguei tudo fora, e isso tudo porque não consegui dizer dos meus sentimentos.

 

Queria poder voltar o tempo pra te dizer que naquele momento que disse que desistia de tudo, estava me referindo a outras coisas: desistia de ter aquela conversa, desistia de ser tão complicada, desistia de ter aquele tipo de relacionamento com vc (um relacionamento destrutivo), desistia de pensar, de agir daquela forma. Era de tudo isso que desistia, mas não de vc! Em hipótese nenhuma de vc ou de nós!

 

Queria poder voltar o tempo e naquela hora parar o carro no meio da avenida e te abraçar, te beijar e dizer que estou (estava) nas suas mãos, que aquela discussão não tinha motivo de ser tão difícil, que podíamos nos acalmar, nos consolar e achar juntos um jeito de resolver.

 

Queria poder voltar o tempo e me aconchegar no teu peito, gritar para vc o quanto te quero perto, junto comigo, o quanto vc faz falta na minha vida.

 

Queria poder voltar o tempo e continuar fazendo todas as coisas boas que fiz com vc, repetir os passeios, o carnaval, as baladas, os filmes, as noites, a viagem; tudo de bom que passei com você.

 



Escrito por Kaká às 14h07
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