VOZINHA
Dizem que os avós são aqueles que carregam e transmitem as histórias, os costumes, as crenças de uma família para as gerações seguintes... Aqui eu retransmitirei algumas dessas experiências que me foram passadas por você:
Tem a história dos almoços nas várias casas por onde passamos: todos tiravam seus pratos da mesa, mas o prato do vovô as netas que tinham que tirar; e nós reclamávamos: “Por quê o vô não tira?”. Costume? Costume de uma época que não era a nossa, de uma época onde as mulheres tinham que servir os homens... Foi a forma que você aprendeu, nos ensinou e nós questionamos.
Lembra dos bifes, dos contados bifes? Você dizia: “Um pra cada um!”. E nós brigávamos, ficávamos com vontade de comer mais. Me pergunto até hoje se você aprendeu isso com seus pais, que talvez tenham tido que fazer isso na ocasião da guerra.
Você conta sempre, até hoje, de quando ia passear comigo pela Cardeal (“eu morava lá em cima e andava até lá embaixo com você!!!!”) e todos falavam do meu cabelo enrolado e queriam passar a mão para sentir como era. E você? Você se gabava e se gaba até hoje com a netinha com o cabelo de anjinho...
Lembra do aniversário da sua amiga? Outra história que passamos juntas e que você não esquece (e não se cansa de contar): eu deixei cair bolo no tapete e fui pegar um pano para limpar... Por quê fiz isso? Não sei, quase nem me lembro dessa cena, mas você sempre me lembra dela. Acho que limpei porque me lembrei de tudo o que você sempre falou sobre ter MODOS! “Tenha modos, Karina!”, “Se for na casa dos outros, pegue uma coisa de cada vez!”, “Não mexa em nada: olhe com os olhos!”.
E quando ia me fazer dormir, que tinha que contar as histórias que meu pai tinha contado na noite anterior, e eu te corrigia dizendo que a história estava errada. Essa é minha avó – que sempre contava a história do gatinho – e cantava a história do gatinho enquanto cozinhava, limpava a casa. A criatividade da minha avó: sempre a porra do gatinho! (já estou ouvindo um “KARIIIIINA, OLHA A BOCA!”)
Isso também foi motivo de várias brigas: os palavrões. Como eu falava e falo palavrão, né vozinha?! E dá-lhe pimenta, dá-lhe tapa na boca, dá-lhe broncas, mas quando não era você a passar pimenta, logo vinha me defender.
E as respostas? “Como é respondona essa menina!”, você dizia. Sou ainda vó, porque há coisas que nunca vou mudar...
Poderia ficar aqui falando sobre várias coisas, mas nós sabemos das histórias que passamos juntas e sempre saberemos, e eu, quando for avó, vou contar nossas histórias para meus netos e transmitir todas essas crenças e aprendizados que me fizeram ser quem sou.
Hoje já me vejo repetindo coisas que você falava e fazia e que eu ria, tirava sarro. Lembra? Você dizia: “quando crescer vai me dar razão!”, pois então, hoje tenho certeza de que o que fazemos em casa, fazemos na rua; que minha mãe é minha melhor amiga; que muitas (mas não todas) as minhas “amigas” têm inveja de mim; gosto de cozinhar e de resmungar como você.
Mas deixei de beijar o pão antes de jogá-lo no lixo, não acredito mais no homem do saco, não creio que um anjinho vai passar e dizer “amém”, não sou católica, não vou à missa e nem casar na igreja, continuo falando palavrão e respondendo muito, muito... Porém, sou íntegra, sincera, honesta, justa, tenho um bom coração, educada, amorosa e.... teimosa, como você!
Te Amo Muito!
Obs: Continue fazendo as novenas para Santo Antonio porque continuo na seca!
Escrito por Kaká às 17h49
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