De trás pra frente
E é assim...
Quando você se vê do outro lado do mundo, numa ilha deserta e se pergunta por que.
A viagem para o outro lado é rápida, um tombo, um rompante, sempre destrutivo.
É quando se depara com a solidão infinita, cortante, quando pouco enxerga o lado de lá.
Essa foi uma rápida jornada: me deparei com meus maiores medos, minhas angústias enraizadas, meus desejos mais secretos, minha sempre presente destruição.
E foi aí, no meu maior pesadelo que decidi voltar.
Mais uma vez, nesses meus anos de estrada, peguei meus pedaços e decidi voltar pro lado de cá. Juntei meus trapos, meus laços, amarrei tudo com lágrimas e coragem e passei a remar.
E nessa travessia de volta eu naveguei por mares revoltos, entrei em contato com meus monstros e jurei que dessa vez eu iria pra não mais voltar.
Quando cá cheguei, me olhei, e não gostei do que vi.
Estava derrubada, acabada, vazia, sentia falta de toque, de calor, de humanidade.
E então lembrei de quando parti - e vi você.
Eu fugi de mim, de você: parti pro lado de lá.
E cá estando, em solo firme, resolvi nos enfrentar.
Foi uma outra caminhada...
Entrar em contato com aqueles sentimentos que achei que haviam ficado do lado de lá.
Eles foram e voltaram comigo: havia me esquecido! Ou quis achar que sim.
Lembrei como cuidou de mim, como me amparou e me repousou em seus braços.
Me deu colo, paixão, tesão, calor... Me fez sua, fui toda sua, criou nosso mundo e me alimentou dele.
Me senti eu, eu inteira, eu com tudo que podia ser...
E quando você partiu, me privou de mim.
Saí desesperada, entrei numa loja.
Queria me achar.
Me pedi laranja, comprei um aquário, enchi de água para respirar e me aconcheguei naquele novo lugar.
Passei uma fita, escrevi minhas últimas palavras e fui ao seu encontro.
Foi assim que me dei pra você, aquilo que ainda restava de mim.
Eu dentro de um aquário...
Pra você me guardar
No seu mundo que eu não teria mais lugar.
Escrito por Kaká às 21h50
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